
Das flores trazidas pelos ventos da primavera a que mais me encanta é aquela que cautelosamente encontra espaço entre a terra ressequida do sertão e o desejo de florescer. Quem já sentiu no rosto o sopro quente do ar do sertão entenderá tamanha admiração.
Enquanto espera pacientemente que a chuva venha presentear suas folhas a intrépida flor conta com o brilho do luar para afagar as pétalas que durante o dia cederam suas cores aos raios do sol.

Ponho-me a refletir ao passo que projeto meu corpo para trilhar sobre as linhas férreas que conheci desse país; elas levam-me ao longe, mesmo que meus pés estejam de fato cravados ao chão. O emaranhado de trilhos carrega meu pensamento pelo chão extenso até a Amazônia e os seringais. Terra que carrega um tesouro, e berço da estrada de ferro; peregrino até a Amazônia para que consiga encontrar-me dentro de meu próprio ser.

Escondi meu rosto para mostrar-lhe minha mão; não aquela que toca, acaricia, ou manuseia, a que dá cordas aos confins de minha imaginação. A mão que preenche o papel branco, que colore as lacunas do pensar e assim dá vida.
Aqui! Não é a boca e sim a mão que ganha a incumbência de contar; contar histórias, quaisquer que sejam elas. Porque antes de tudo nada era; e no princípio tudo era verbo, e só depois veio a palavra. Da palavra veio o contar e do contar a história.
Eis-me aqui! Exatamente aqui, entre o contar e a história!

Nas vésperas da primavera me abalo com o peso de minhas recordações. Estranhamente o dia que antecede a estação das flores trouxe consigo carregadas nuvens de saudade, derramando a chuva como lágrimas que hão de lavar os campos; deixando-os férteis para que recebam as sementes.
As recordações se fazem vivas pois passam pelo processo de retransitar pelas vias dos cordis, e ao fazê-lo tumultuam sua freqüência de batidas. Incrívelmente cada lembrança se junta ao meu peito a mesma medida em que as nuvens se aproximam para tapar o azul do céu. Não são nuvens brancas, iluminadas pelos raios do sol são um aglomerado cinza esperando a hora de derramar suas águas.
Diga lá!
Alguém avisa o clima que amanhã é primavera.
Diga lá!
Alguém avisa meu coração que a chuva cai e as nuvens passam.
Porque amanhã! Amanhã é primavera!!

Recordo-me que falava do tango, sinto-me deveras emocionada quando me refiro a tal ritmo. O compasso do acordeom e a volúpia dos corpos rodopiando em meio ao salão me encantam.
O tango é o bater dos corações dos amantes em euforia, o êxtase supremo que escapa dos corpos e ganha vida em forma de som. Tão excitante quanto o orgasmo de mil virgens. Esse ritmo, para mim repleto dos mais sutis significados, segue o fluxo contrário dos demais sons. Sobe-me pelas coxas como as mãos de um amante fervoroso até chegar ao meu peito, aonde adentra minha carne e se instala em meu órgão pulsante.
Ao ouvir o tango revivo minhas lembranças, as quais escapam de minha memória e se postam frente aos meus olhos, como um presente momentâneo.
Vejam só, já estou eu novamente me perdendo entre os mais variados pensamentos sobre o tango. Prometi-lhes contar minha história, assim o farei, e começo pelo exato momento em que escolhi o meu nome. Não me entendam mal, não escondo aqui meu nome verdadeiro por não gostar deste, muito menos por vergonha daquilo que irei narrar, apenas acho que meu nome não combina com o tom que levei minha vida.
Naquela noite cortei meus pulsos! Sim, para mim é natural falar isso assim. Mas talvez minha calma ao anunciar esse fato se dê pela ausência do desejo de morrer. Pode parecer engraçado alguém cortar os pulsos senão para morrer. Replico dizendo que já me sentia vazia de vida antes mesmo de passar a lâmina pela minha carne. Suponho que quisesse lavar minha alma com sangue, já que o vinho não cumprira tal encargo. Nem mesmo a cachaça mais amarga apagaria minhas dores naquela noite.
Talvez a dor carnal diminuísse aquela entranhada em meu órgão vital. Mas, de fato, não cheguei a senti-la, ao ver o ferro atravessando as finas camadas de minha pele, hesitei. Prefiro entregar-me aos prazeres mundanos do que mutilar-me pelas dores que alguém plantou em meu peito.
Assim aconteceu, procurei o rouge entre meus pertences, corei minha face, apertei os lábios, soltei meus longos cachos e sai a procura de um macho que pudesse me preencher com sua virilidade. E foi nos braços de um belo exemplar masculino que matei a mim mesma, foi nos braços de um belo exemplar masculino que criei a mim mesma.
Agora eu era Cacilda B.

Peguei-me a ouvir um tango um dia desses, confesso que tal ritmo faz minhas veias pulsarem com mais vigor. Lamento que não tenha aprendido, quando ainda jovem, a emaranhar minhas pernas as de um macho ao som de um bom tango; refiro-me à dança, logicamente. Sempre fui fascinada por ela, porém quando moça preocupava-me em me emaranhar em pernas de uma outra forma, e sempre fui boa nisso.
Agora reservo-me às lembranças da juventude, e aos sonhos que por vezes permito-me ter. Já que a dança, esta já não dialoga mais com meus joelhos. Desculpe-me o saudosismo, garanto-lhes que não sou uma velha rabugenta que culpa a juventude dos outros pela ausência da sua. O fato é que a juventude está no espírito e não nos joelhos, desta forma julgo-me jovem; mesmo que as linhas de minhas mãos e os traços do meu rosto insistam em negar tal sentimento.
Contar-vos-ei minha história, mas não esta noite. Esta noite entrego-me ao tango.

Por tanto pensar no passado, imaginei um futuro e acabei me perdendo no presente. Voltei-me aos dicionários afim de encontrar uma definição adequada para ação de se perder. Foram inúmeras as opções que me foram dadas, língua intrigante essa que falamos, tantos significados para uma mesma palavra. Tantas definições para um mesmo sentimento. Tantos tempos para o mesmo verbo. Dentre minhas opções, a que melhor me convence é a oportunidade de se encontrar, após ter se perdido.
Se o passado já passou, se o futuro está por vir. O presente é a dávida que lhe nomeia.